Salmo 23:4

Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.

Você já andou pelo vale da sombra da morte? Já enfrentou uma situação em que a perspectiva de perder a própria vida se tornou uma opção bem próxima e plausível? Passar por uma experiência traumática, de quase morte, é um evento que, com certeza, marca a vida de qualquer um. Não há como você sobreviver  e continuar a mesma pessoa. Vou relatar o testemunho de alguém que passou por uma situação dessas.

Era um jovem de quase 19 anos. Cheio de sonhos e perspectivas para o futuro, havia decidido um ano antes dar uma guinada na vida: se mudou de uma grande cidade no sul do país para uma pequena cidade no interior de Goiás. Ele buscava uma direção de Deus, um sentido para sua vida. Ele queria que, de alguma maneira, seu futuro colaborasse para a realização do plano de Deus na Terra. E ele ficou conhecendo esta cidadezinha, onde um grupo de pessoas também buscava, pelo estudo da Palavra, descobrir qual o propósito original de Deus para a Igreja. O que mais atraiu este jovem foi o fato de que eles não eram apenas um grupo “teórico”. Eles buscavam viver o que estudavam e pregavam de várias maneiras diferentes. Eles mantinham um colégio com uma educação baseada em princípios bíblicos. Eles construíam diversas casas para viúvas e necessitados. Eles mantinham uma gráfica que distribuía para todo o país literatura na forma de livretos e apostilas, frutos das diversas reuniões ou de traduções de artigos estrangeiros. Alguns buscavam viver juntos em uma chácara, tentando vivenciar a prática da vida cristã em comunidade. Este estilo de vida foi a principal razão que atraiu este jovem para aquele lugar.

Certa vez o grupo de homens do local se organizou para, em uma manhã de sábado, formar um mutirão para demolir uma construção. Era uma casa bem antiga, onde antes funcionava a gráfica, sem condições de reforma, e que ocupava o espaço na frente do local de reuniões. O grupo se organizou para retirar a telha e o madeiramento, para depois derrubar as paredes. O entulho resultante seria usado para tampar uma antiga cisterna que havia no mesmo lote.

Naquela manhã, quando o jovem chegou, o trabalho já estava em andamento, com um primeiro grupo já retirando telhas e madeiramento. Como a construção era muito antiga, assim que as telhas e madeiras de metade da casa foram retirados, as paredes logo abaixo não mantiveram a sustentação e ruíram, ficando a segunda parte da casa ainda de pé. Para adiantar os trabalhos um segundo grupo começou a jogar na cisterna os tijolos deste início de demolição. O jovem fez parte deste grupo. Enquanto isso, o primeiro grupo continuava o serviço na segunda metade do telhado.

Nesse momento aconteceu o acidente. O caibro central da parede da casa, lavrado a machado e bem pesado, desabou sem aviso prévio. A primeira ponta desta madeira caiu no chão, mas a segunda ponta atingiu diretamente a cabeça do jovem, que naquele momento estava empilhando alguns tijolos. Ele nem viu o que aconteceu. Ele caiu desacordado, e logo em seguida boa parte da parede central da casa ruiu sobre ele.

Os momentos seguintes foram tumultuados. De imediato os homens retiraram o corpo desacordado do jovem dos entulhos. Logo perceberam a seriedade dos ferimentos e o transportaram para o pequeno hospital da cidade. O médico local reconheceu que ali não era o local adequado para o atendimento e os encaminharam para uma cidade vizinha, maior, a cinquenta quilômetros, para um hospital com maiores recursos. Na falta de uma ambulância, levaram o jovem em um colchão na carroceria de uma caminhonete.

Ao chegarem à cidade vizinha, o médico de plantão diagnosticou que o acidente havia provocado a ruptura dos pulmões. Como consequência, parte do ar que o jovem respirava se infiltrava nos tecidos. Ele começou, literalmente, a inflar. Isso sem falar no trauma na cabeça, que tinha um corte profundo. Fizeram uma traqueotomia, uma espécie de abertura de um orifício no pescoço, procedimento que facilitava a respiração. Mas mesmo aquele hospital não estava equipado adequadamente para o atendimento que precisava ser feito. Entraram em contato com outro hospital em uma grande cidade de Goiás, reservaram um leito de UTI, e uma ambulância o conduziu até lá.

Foi na ambulância que o jovem recobrou a consciência pela primeira vez. A princípio ele não entendeu o que estava acontecendo. Só percebeu duas coisas. A primeira era que ele não conseguia respirar direito e se sentia sufocado. Ao passar a mão pelo pescoço percebeu que seu volume estava estranho, muito maior do que o normal. A segunda coisa que percebeu foi que estava com uma sede muito grande, mas não podia beber nada, tanto pela traqueotomia quanto pelo trauma em si. O que podiam fazer para amenizar a situação era molhar um chumaço de algodão em água e molhar seus lábios, o que o deixava com mais sede ainda.

O médico que estava de plantão no destino final era, coincidentemente, um pneumologista. De imediato o levaram a uma sala de cirurgia. Neste momento o jovem quase não conseguia respirar e se sentia como um balão. Quanto mais ele tentava respirar, mais ar ficava retido entre os tecidos, e mais pressão era produzida sobre os pulmões, impedindo assim a respiração. O jovem não se lembra se recebeu alguma anestesia ou não. Mas ele estava acordado quando o médico fez uma pequena incisão no seu lado direito, para a colocação de um dreno no pulmão. Neste exato momento o ar retido em seu corpo escapou com força, marcando de vermelho o avental do médico, e permitindo que o jovem respirasse normalmente. Nunca antes ele havia valorizado um ato tão simples como respirar quanto naquele momento.

Com um dreno em cada pulmão ele foi encaminhado à UTI. Os dias seguintes foram uma sucessão de momentos de melhora e de piora do seu quadro clínico. Por duas vezes a situação ficou bem complicada.

Em uma madrugada, provavelmente por causa do trauma cerebral, o jovem paciente teve uma reação violenta. Para ele a lembrança daquela noite foi como se ele estivesse no meio de um pesadelo. Neste pesadelo, ele estava sequestrado e precisava fugir se quisesse viver. Com a adrenalina em alta ele arrancou os drenos dos pulmões, saiu correndo pela UTI e agrediu algumas enfermeiras, antes de ser controlado por outras enfermeiras. No dia seguinte, ele acordou se sentindo grogue pela sedação, e com as mãos e pés amarrados ao leito. E com os drenos novamente colocados.

Em outra noite, e desta vez bem consciente da situação, a dor se tornou insuportável. Com os pulmões bem machucados, respirar se tornou um tormento. A cada inspiração era como se centenas de pequenas facas perfurassem cada pulmão do jovem. E a cada instante a situação piorava. Em certo momento, durante a madrugada, o jovem percebeu que provavelmente não iria mais ver a luz do dia. No meio de toda a dor, o jovem começou a se questionar se estava pronto para se encontrar com o Criador. E neste momento algo incrível aconteceu. O jovem até hoje não sabe explicar com palavras o que de fato aconteceu. Apesar de toda a dor e incômodo, o jovem se sentiu envolvido em uma paz profunda e tranquilizadora. Era como se ele tivesse se tornado um bebê, embalado no colo por um pai amoroso. A dor não importava. A morte não importava. O medo não existia. Até hoje, quando o jovem lembra-se disso, ele diz que tem saudades daquele momento, por mais estranho que isto possa parecer.

A partir daquele dia o organismo do jovem reagiu, e ele passou a melhorar visivelmente. Do acidente até a alta do hospital se passaram menos de 40 dias. Ele saiu do hospital bem magro (40 quilos), com a metade do pulmão esquerdo extraída, mas vivo.

Este é o meu testemunho, ocorrido em setembro de 1988.

Hoje eu posso afirmar que esta experiência mudou drasticamente o curso da minha vida. Nem sei dizer o que aprendi. Nem sei dizer o que mudou. Mas com certeza posso afirmar que o Senhor esteve comigo em todo o trajeto.

Deus permite que certas tragédias aconteçam para que ele possa nos mostrar sua vara e seu cajado, como diz o versículo acima.

Vara é correção. Cajado é condução.

A vara nos mostra onde estamos errados e no que temos sido falhos. A correção não é agradável em si, mas o seu resultado é vida. A vara não é instrumento de castigo. A vara é demonstração de amor e cuidado do Senhor por nossas vidas.

O cajado é o instrumento usado pelo pastor para orientar suas ovelhas. Não adianta apenas mostrar o erro. O Senhor também nos mostra o caminho. Indica-nos qual o sentido que devemos dar às nossas vidas. O cajado é o instrumento do Senhor para conduzir nossas vidas.

Cada vez que me lembro dos momentos que passei naquela UTI, consigo identificar com clareza o cuidado e o tratamento do Senhor, a ação da vara e do cajado. E serei eternamente grato por esta experiência.

Para você pensar: Você já passou pelo vale da sombra da morte? Você poderia relatar a sua experiência no campo de comentários abaixo? Você sabe identificar os momentos da sua vida em que o Senhor usou a vara e o cajado? Quais lições você tirou destas experiências?

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Sobre Wilson Moraes

Brasileiro, casado com a Maria José, pai do Gabriel, da Jordana e da Camila. Procurando servir a Deus de maneira intensa e verdadeira. Colocando minha vida a serviço do Seu Reino.
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6 respostas para Salmo 23:4

  1. Andre disse:

    Muito incrível a sua história, parabéns pela sua luta e pela sua vontade de viver.

  2. Arlindo disse:

    Estou muito grato por ter partilhado essa experiência. Ela constitui-se de um forte encorajamento na minha vida.

    Eu vivi momentos desses, longos anos de tormento por causa da pobreza, vivendo sozinho e longe dos meus pais. Tinha um desafio: estudar, mas não prevaricar para ganhar dinheiro. Não vou falar muito disto, mas foi uma experiência dura em que Deus, sem dúvida, aplicou a sua vara e o seu cajado, principalmente quando não tinha comida, quando ficasse doente, e era muitas vezes vítima de malária.

    Agora vou partihar aquilo que me marcou mais neste percurso. Foi no fim do primeiro ano de faculdade que tive uma doenca que atacou-me violentamente no coração. Muitas vezes não sabia se estaria vivo nas próximas horas, vivia sozinho e não tinha dinheiro para procurar tratamento mais especializado. Isso durou um ano e alguns meses. Coincidentemente aconteceu numa altura em que começava a receber estudos bíblicos que me abriram os olhos para conhecer a Deus e começar uma relação muito séria com ele. Estava tão apaixonado por Deus que não queria perder os estudos. Apesar da dor que eu sentia eu me arrastava e consegui concluir os estudos bíblicos e fui baptizado. Depois de tantos comprimidos que eu vinha tomando, a dor não passava e um dia desafiei a Deus: eu vou parar de tomar estes comprimidos porque em nada me ajudam, mas por favor cure-me esta dor. E, desta maneira, Deus me curou. Isto me marcou e nunca vou me esquecer disso porque pensava que ia morrer. Me lembro quando pessoas me viram em crise mas sem desistir de Deus apesar de me aconselharem que eu o fizesse. Eu hoje vivo uma fé trêmula, não me mantive fiel em alguns campos, mas clamo por misericórdia dia e noite, porque Deus continua a ser a maior coisa que eu quero na minha vida.

    Obrigado
    Arlindo

  3. aline disse:

    Lindas histórias! Que Deus nos proteja sempre.

  4. ÍCARO DRUMOND LIRA DE SOUZA disse:

    isso é o que acontece com a maioria das pessoas que, vivem uma experiencia profunda com DEUS, pois se “ARLINDO” decidir continuar na batalha ele com certeza será um grande problema para o nosso adversário…

  5. André Santos disse:

    QUE JESUS TE ABENÇOE MEU QUERIDO IRMÃO

  6. André Santos disse:

    JESUS É MARAVILHOSO MEUS IRMÃOS! VAMOS MORAR COM ELE NO CÉU!

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